Abrapa e sou de algodão: uma história de sustentabilidade em prol da pluma

Postada em: 14/10/2021


Abrapa na mídia​

A Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) é uma entidade que preza pela produção do algodão sustentável e responsável. Para tanto, criaram o selo ABR (Algodão Brasileiro Responsável), que visa dar a garantia de que a fibra é produzida e vendida dentro das normas mais exigentes quanto a sua qualidade e rastreabilidade. A ideia é que o algodão tenha uma forma de produção e consumo consciente, desde a primeira cadeia, no plantio, até a última, o consumidor final – este tendo a possibilidade de ver nas etiquetas das peças o caminho traçado.

A exemplo do BCI (Better Cotton Iniciative) – organização sem fins lucrativos, criada em 2005, com sede em Genebra, Suíça -, o ABR quer dar visibilidade a todo processo produtivo do algodão, concedendo a seus implicados condições justas inseridas na Organização Mundial do Trabalho, assim como o fomento por uma fibra livre de implicações que andem contra as regras da Abrapa – cujos pilares são ações econômicas, sociais e ambientais. 

A Abrapa tem rastreabilidade, que é o SAI (Sistema Abrapa de Informação). Com ele, a entidade sabe como cada fardo de algodão foi produzido, por quem e onde foi beneficiado. O algodão brasileiro também é uma fibra natural, biodegradável, confortável e sustentável. 

“Nosso diamante é o ABR. Nós temos o programa de sustentabilidade mais completo em nível mundial, porque a ABR tem três pilares: econômico, social e ambiental.  São 178 itens que o produtor tem que cumprir, nos três pilares estipulados.  Ademais, 35% das áreas de plantio são preservadas, e 81% do algodão produzido no Brasil tem o selo ABR. O nosso algodão ABR gera 38% de todo o algodão BCI no mundo”, diz Júlio Cézar Busato, engenheiro agrônomo, agricultor, plantador de algodão e presidente do conselho de administração da Abrapa. 


A história do algodão começa em 1760, no estado do Maranhão. Naquela época os governadores já queriam cobrar impostos dos agricultores. “E eles impuseram taxas tão altas que acabou inviabilizando a cultura. Foi bem na época em que acontecia a Revolução Industrial na Inglaterra. Por conta disso, o Brasil perde uma grande chance de se industrializar e de se tornar um grande fornecedor de algodão para o mundo”, completa Busato. 

Mas a iniciativa de sermos grandes produtores de algodão não terminaria aí. Nas décadas de 1970 a 1990, o Brasil aparece de novo como um grande produtor mundial de algodão, plantando 4,2 milhões de hectares. “Hoje plantamos 1,4 milhão de hectares, então era 3 vezes e meio o que temos hoje. Na década de 1990, o Brasil se torna o segundo maior importador de algodão, só perdendo para a China”, explica Busato. Atualmente, 96% do algodão brasileiro é produzido no cerrado. 

A Abrapa se uniu à Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a universidades públicas e privadas, fornecedores de insumos, e foram “xeretar” formas de cultivo na Austrália, Estados Unidos e Israel. Era mais uma forma de aprendizado. 

“Em 31 anos, hoje nós temos a maior produção de algodão não irrigado do mundo. Nós conseguimos produzir o dobro de pluma na mesma área de cultivo – no mesmo hectare – do que nosso colega norte-americano, e nos tornamos o quarto maior produtor mundial de algodão, além de sermos o segundo maior exportador. Então hoje, qual a importância do algodão para o Brasil? Nós fornecemos 700 mil toneladas para a indústria têxtil brasileira, que infelizmente decresceu nesse período, e exportamos o excedente. Em 2020, nós produzimos 3 milhões de toneladas, e trouxemos para casa US$ 3,5 bilhões”, comemora. 

O que a Abrapa deseja é conquistar mais mercados. Atualmente, o Brasil tem 25% do mercado mundial, e os americanos têm 38%. “E por que que a gente quer plantar mais algodão? Porque o algodão tem um faturamento bruto 3 vezes maior que o da soja, e emprega 5 vezes mais pessoas que a soja. Ou seja, é interessante para nós e para o Brasil”, explica Busato. 

A saber – Na década de 1970, os brasileiros compravam 80% de suas roupas feitas de algodão, e hoje são 49%. Ou seja, fomos perdendo mercado ao longo do tempo, e no mundo esse índice cai para 23%. Mas o trabalho da Abrapa é para reverter esses números.


Sou de Algodão
O presidente da Abrapa conta que em 2016 nasce o Sou de Algodão a partir de um plano estratégico que foi montado por meio de uma pesquisa, que teve início em meados de 2014 e terminou em 2015, ou seja, um um ano e meio de trabalho. Ele tem três pilares muito claros: informacional, o de negócios e o promocional. E dentro desses pilares – ao longo desses cinco anos, que se completam no próximo dia 26 – foram desdobrando o movimento em várias ações. 

“Para cada ano de trabalho, a gente estabelece no mínimo dez metas que são cruciais para o Movimento Sou de Algodão. Então, obviamente, desde que começamos, as marcas parceiras sempre foram uma meta importante para nós. E por que isso? Porque desde o começo, com uma troca com os americanos, em 2011 ainda, antes de a gente se aventurar a pensar em Sou de Algodão no Brasil, nós pegamos muito da experiência deles, que já estão há 50 anos nisso. A marca parceira é fundamental porque não adianta dizer ao consumidor final ‘compre algodão’, você tem que dizer onde, quais marcas, mostrar como olhar a etiqueta. Trazer as marcas parceiras tem a ver com a ideia do coletivo, do engajamento. A Abrapa não poderia trabalhar um movimento como esse sozinha ou só com os produtores, ou seja, com o início da cadeia. O setor têxtil é o segundo em termos de transformação do País e em geração de empregos, boa parte da cadeia é feminina, então precisávamos dessa aproximação com o coletivo e com as marcas para chegar ao consumidor final.”

Mas nem tudo foi simples. No começo, tudo o que o que eles achavam que estavam construindo, nesses 15 anos, em termos de sustentabilidade e rastreabilidade, não chegava ao consumidor final, porque os fardos eram etiquetados, mas durante o processo isso se perdia e o consumidor final ficava sem as informações. 

Então a grande estratégia do sou de algodão foi dizer ao consumidor final tudo o que faziam dentro de casa, incentivar a cadeia têxtil a fazer parte disso. “Temos feito muitas ações em conjunto justamente para levar informação a esse consumidor final. Consulte a etiqueta, saiba o que você está comprando, qual é a composição”, orienta 

Outra coisa bacana a ser dita, é que nessa safra mais recente, 80% da produção é certificada.  Além disso, 92% do algodão brasileiro é produzido em regime de sequeiro, ou seja, não utiliza irrigação – isso é feito única e exclusivamente com água da chuva. E por que eles frisam esses dados? Justamente porque seus maiores concorrentes, Estados Unidos e Austrália, produzem em regime de irrigação, assim sendo, a produção brasileira é mais eficiente pois consegue aproveitar melhor as janelas, as temporadas de secas e de chuvas. 

“Cada vez mais as pessoas estão querendo se engajar nesse projeto, que leva o que o mercado está pedindo, como sustentabilidade e rastreabilidade. Nós levamos praticamente 15 anos para construir isso, mas agora nós temos um programa que está pronto. Estamos criando um grande exército de pessoas que vão mostrar que o produtor de algodão não é o que foi dito sobre ele, mas uma cadeia de responsabilidade social e ambiental”, diz Busato. 

Desafio Sou de Algodão
Para incentivar cada vez  mais o uso de algodão como matéria-prima na moda, a Abrapa desenvolve um outro projeto, o Desafio Sou de Algodão, voltado a estudantes de moda. 

“Nós já estamos na segunda edição do programa Desafio Sou de Algodão. No Dia Internacional da Moda, 22 de agosto, lançamos o segundo desafio. Vamos fazer seleções regionais, até 20 melhores trabalhos sendo avaliados por júri regional, resultando em dois trabalhos que representarão o Desafio Sou de Algodão. Serão 10 finalistas, diferentemente da primeira edição que tivemos seis, e faremos o desfile presencial em maio de 2022 com todos os finalistas. 

Mas chegar às universidades e faculdades em tempos pandêmicos é um grande desafio, porque o segundo programa foi lançado bem no meio da pandemia, e eles tiveram dificuldade por algumas universidades estarem fechadas e não terem como acessar os coordenadores dos cursos. “Mas nós fizemos vários encontros no formato webinar, e estamos trabalhando com essa divulgação 100% online, com a qual temos alcançado muitas faculdades. As inscrições ficam abertas até o dia 15 de outubro”, lembra Busato.

Eles também perceberam que há uma grande carência sobre o ensino técnico do algodão nas faculdades de moda, e o Desafio Sou de Algodão consegue contribuir complementando esse conhecimento. “Então, nesta edição, além da parte criativa, nós estamos oferecendo uma jornada de conteúdos com vídeo de especialistas em vários assuntos para que possamos preparar esses estudantes para a fase final. São dicas como styling, fotografia de moda, relacionamento com a imprensa etc.”

O desafio objetiva que o estudante se dedique tanto à criação da coleção – como escolha de tecidos -, até a parte de conhecimento, para que estejam um pouco mais preparados para o mercado.

Sou de Algodão Conecta
O Movimento Sou de Algodão se divide em várias frentes, com a responsabilidade de explicar a importância de se usar o algodão como matéria-prima, quando falamos nas marcas, com o objetivo de incentivar novos criadores a optarem pelo tecido, e a troca de informações entre as marcas parceiras do projeto, como modelo de negócio.

“Nós sempre buscamos uma aproximação com as marcas e também entre as marcas, então é um modelo de negócio. Nós temos quase 700 marcas parceiras já, ou seja, um número enorme de CNPJs que podem compartilhar entre eles. Fizemos um primeiro webinar para falar sobre o comportamento do consumidor. Queremos justamente estimular esse networking para que todos possam se conhecer, confecções e marcas, tecelagens e confecções e assim por diante. Pretendemos fazer encontros frequentes com abordagens diferentes”, explica Busato.


SouABR

A mais recente novidade do Movimento Sou de Algodão é o SouABR. O projeto, unido à carioca Reserva, do grupo AR&CO, e à Renner, pretendem oferecer informações sobre a origem certificada do algodão e o processo de produção da peça adquirida pelos consumidores brasileiros.

Em desenvolvimento há mais de um ano e meio, o principal objetivo do programa é oferecer transparência ao consumidor, e estimular escolhas mais conscientes, mostrando que o algodão presente naquela peça de roupa tem na origem a certificação socioambiental Algodão Brasileiro Responsável, que entrega à indústria o comprometimento dos produtores com os três pilares da sustentabilidade. SouABR é a primeira iniciativa de rastreabilidade, em larga escala, na cadeia têxtil nacional.

O caminho que o algodão certificado percorre começa na fazenda, onde a produção atende a um completo protocolo, que abrange desde o respeito ao meio ambiente e às leis trabalhistas, bem como zela pela eficiência econômica. A certificação ABR possui 178 itens de verificação distribuídos em 8 critérios: contrato de trabalho, proibição do trabalho infantil, proibição de trabalho análogo a escravo ou em condições degradantes ou indignas, liberdade de associação sindical, proibição de discriminação de pessoas, segurança, saúde ocupacional, meio ambiente do trabalho, desempenho ambiental e boas práticas.

Por meio da leitura do QR Code presente na etiqueta da roupa, o consumidor que compra esta peça na loja pode conhecer a fazenda onde o algodão com certificação socioambiental foi cultivado, a fiação que o transformou em fio, a tecelagem ou a malharia que desenvolveu o tecido ou a malha e a confecção que cortou e costurou. Todas as peças rastreáveis do programa SouABR usam, no mínimo, 70% de algodão, em sua composição, sendo que 100% dessa fibra natural presente no produto tem certificação socioambiental.


https://harpersbazaar.uol.com.br/bazaar-green/abrapa-e-sou-de-algodao-uma-historia-de-sustentabilidade-em-prol-da-pluma/

 

Harper's Bazaar – Por Ligia Kas – 12.10.2021