ARTIGO - O futuro do jeans é o futuro

Postada em: 04/11/2020


O jeans do amanhã é um grande ponto de interrogação, disse o chamado/incensado "godfather of denim", ou o padrinho do algodão, para finalizar com frase de efeito a palestra proferida no evento Denim City São Paulo, no último dia 28. Interrogações simbolizam dúvidas, mas as frases reproduzidas na mídia segmentada GBL Jeans, atribuídas ao estilista italiano Adriano Goldschmied, atestam muito mais as falsas certezas do pensamento meramente ideológico, isento de comprovações. Que não passaram sequer pela fase das interrogações, de quem, com humildade científica, admite que não sabe e pergunta antes de falar. Senão, vejamos, nesse excerto do texto da GBL Jeans:

 

"AG colocou em cheque (SIC) o futuro do algodão tradicional para o jeans que, na opinião dele, deveria ser substituído por fibras mais sustentáveis, como o cânhamo industrial. 'O algodão precisa de muita terra, consome muita água, energia, produtos químicos, além de ser uma lavoura degenerativa para o solo. O futuro da humanidade depende de que a terra seja usada para a produção de alimentos'", opina.

 

Segundo a matéria, ele segue "opinando". Além do cânhamo industrial e das fibras celulósicas derivadas de florestas certificadas, sugere o uso do algodão orgânico em substituição ao algodão "tradicional".

 

Se vem ao País que é o quarto maior produtor de algodão do mundo, segundo maior exportador global e primeiro colocado do ranking de pluma licenciada pela ONG suíça Better Cotton Initiative (BCI), melhor conhecer o algodão brasileiro, antes de falar mal. Não vamos nos ater a comparar, em sustentabilidade, fibras como algodão, cânhamo e viscose (celulose), pois é contrapor coisas diferentes. Tratemos da fibra natural, biodegradável, plantada em rotação de culturas no Brasil, com os maiores índices de produtividade sem irrigação do mundo, o algodão.

 

E só em dizer que não tem irrigação, já rebatemos a falácia de que o algodão consome muita água. O Brasil planta 1,6 milhão de hectares com a fibra, das quais 92% em regime de sequeiro – só com água da chuva. Nesta área, que atende rigorosamente à legislação ambiental e à trabalhista brasileira, o país colhe três milhões de toneladas, com produtividade média de 1,8 mil quilos de pluma por hectare. Este número é duas vezes maior que o alcançado pelos Estados Unidos, nosso principal concorrente, e bem próximo da marca da Austrália, que irriga 100% das suas plantações.

 

O algodão não é uma lavoura degenerativa para o solo nem por suas propriedades botânicas e, no caso brasileiro, menos ainda, pelo método de produção. A cotonicultura é o agronegócio que mais incorpora tecnologia. É também o de maior custo, o que significa que a precisão no uso de cada insumo, desde a semente ao defensivo agrícola, é a diferença entre obter ou não alguma remuneração, num negócio de margens estreitas e no qual se gasta em média R$12 mil por hectare para produzir.

 

Cuidar bem do solo, aliás, é uma das grandes preocupações do agricultor. O Brasil é campeão em Plantio Direto na Palha, uma técnica sustentável que protege a terra agricultada, na medida em que usa a palhada da lavoura que o precedeu para realizar o plantio do algodão. Essa técnica se alia ao fato de que não existe monocultura de algodão no país. A fibra é plantada consorciada com outras lavouras como o milho e a soja, que se alternam a cada safra, evitando a exaustão do solo, e permitindo a otimização de insumos como fertilizantes e máquinas de uma safra para outra.

 

Não culpamos o estilista por desconhecer o algodão e seu modo de plantio, mas não podemos deixar sem resposta suas falsas afirmações. Em um público urbano, composto basicamente por representantes de outros elos da cadeia, como estilistas, designers, projetistas, etc, elas soam como verdades incontestáveis. Segundo a revista, Goldschmied é "incensado" como the godfather of denim. E quem é incensado dificilmente é questionado.

 

Mas se não entende de algodão, por certo não desconhece a BCI. Esta entidade global, com sede na Suíça, chancela a pluma cultivada com parâmetros sustentáveis em todo o mundo. Quem é da moda, e trabalha com algodão, sabe que esta é a referência. Desde 2013, a BCI opera em benchmark com o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), estando os protocolos dos dois programas unificados no Brasil. Contudo, para receber o ABR, o produtor tem de cumprir 178 itens de verificação. Já para o BCI, são apenas 25. De modo que a entidade internacional considera que quem tem a certificação ABR pode receber, se assim quiser, imediatamente, a BCI. De acordo com o relatório publicado pela BCI, em julho deste ano, o Brasil deteve, em 2019, 36% de toda a pluma licenciada pela organização no planeta.

 

Por fim, não basta dizer que o algodão é tudo isso e muito mais. Nós dizemos, comprovamos e rastreamos. Cada fardo de fibra, de cada lavoura de algodão do país, nos dez estados produtores, tem uma espécie de RG que permite rastrear todas as etapas por que passou aquela pluma, desde a fazenda, a lavoura, a máquina que o beneficiou e quais as certificações que ele possui, graças ao Sistema Abrapa de Identificação (SAI). Com isso, à medida que os elos da cadeia à jusante da fazenda tenham as suas próprias certificações de sustentabilidade, se poderá rastrear todo o caminho cumprido por uma roupa, por exemplo, uma calça jeans, até chegar ao guarda roupa, ou quem sabe, ao ponto de descarte, após o fim do seu ciclo de vida.

 

Pensando e agindo de modo sustentável, do ponto de vista social, ambiental e econômico, o Brasil passou, nos últimos 20 anos, de segundo maior importador mundial, ao posto de segundo maior exportador. E, muito em breve, seremos o primeiro. Antes, contudo, abastecemos totalmente a nossa indústria, autossuficientes que somos. Se depender do produtor brasileiro, o futuro do jeans é o dos produtos biodegradáveis: ele volta para a terra, depois de se transformar muitas vezes, gerar riquezas e desenvolvimento, numa história escrita por muitas mãos. 

 

Milton Garbugio – presidente da Abrapaartigo.pdf