Abrapa fala sobre produção responsável em palestra para a Denim City

Postada em: 02/06/2022


A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) apresentou os aspectos e resultados da cadeia responsável pelo algodão brasileiro no evento Denim City São Paulo (DCSP), na quinta-feira, 26 de maio. A palestra foi conduzida por Marcio Portocarrero, diretor executivo da Abrapa, que destacou que a instituição sempre perseguiu o modelo de produção responsável, entendendo que a viabilização da produção de algodão brasileiro requer os pilares sociais, ambientais e econômicos.

 

Depois de apresentar a Abrapa, que há 23 anos trabalha na defesa dos interesses dos produtores de algodão de forma organizada e profissionalizada, Marcio explicou as conquistas ao longo dos anos, que se iniciou em 2004, com a criação do Sistema Abrapa de Identificação (SAI), a rastreabilidade completa do algodão, da origem de sua produção e beneficiamento, e que todas iniciativas de rastreabilidade, responsabilidade, qualidade e promoção sempre levaram em conta a voz da indústria e do consumidor, entendendo o que era tendência das marcas e do mundo da moda. 

 

"Ouvindo o mercado, percebemos que tínhamos que certificar a produção sobre o aspecto ambiental, questões trabalhistas e econômicas, trazendo certificadoras reconhecidas para validarem a conduta dos produtores. Pensando nisso, desenvolvemos o protocolo ABR (Algodão Brasileio Responsável), e, depois, ficamos sabendo da BCI (Better Cotton Initiative). Atraímos a iniciativa para o Brasil e fizemos uma parceria", explica o Portocarrero. 

 

De acordo com ele, no Brasil, o produtor que é certificado ABR, pode ser automaticamente licenciado como Better Cotton. Na busca de qualidade, a Abrapa buscou se espelhar no que os seus principais concorrentes faziam, de forma a garantir competitividade num cenário de comércio global.

 

O Algodão Brasileiro Responsável 

 

"O programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) é uma certificação brasileira, gerenciada nacionalmente pela Abrapa e conduzida no campo pelas oito associações estaduais participantes. É específica para a cultura do algodão e tem como base três pilares: social, ambiental e econômico. Os itens do protocolo abrangem os principais requisitos da legislação brasileira", explica o diretor executivo da Abrapa. 

 

De acordo com ele, trata-se de um protocolo de certificação com 183 itens, que inclui 100% da lei trabalhista, 100% da NR31 (instruções normativas do Ministério do Trabalho), normas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Legislação Ambiental, Código Florestal e boas práticas agrícolas. 

 

O programa ABR inclui 100% dos Critérios Mínimos de Produção da Better Cotton Initiative (BCI), que é uma entidade sediada em Genebra, na Suíça, e que promove a produção responsável de algodão em 23 países do mundo, tendo as principais marcas e varejistas globais como associadas. "Algumas marcas que parceiras da BCI são: American Eagle, GAP, Levi's, Calvin Klein, Nike e Adidas", comenta Portocarrero. 

 

O trabalho consistente e a evolução da Abrapa levaram a cotonicultura brasileira a um novo patamar. Na última safra, o País produziu 1,96 milhões de toneladas de pluma, sendo 84% certificada pelo programa ABR e licenciada BCI. Com esses números, o Brasil se torna o 1º maior fornecedor de algodão responsável, o 2º maior exportador e o 4º maior produtor global da fibra.

 

Durante a palestra, o diretor da Abrapa explicou que todas as fazendas certificadas são registradas no Cadastro Ambiental Rural do Ministério do Meio Ambiente, que é responsável pelos mapeamentos e conferência das documentações ligadas à questão ambiental. 

 

Outro ponto apresentado revela que cerca de 92% da produção cresce em regime de sequeiro, ou seja, não requer irrigação, e que os produtores realizam análises da qualidade da água e do solo, garantindo controle sobre os efeitos da cultura. Um dos pontos destacados é a proteção de nascentes e as boas práticas no armazenamento da água e na prevenção a erosão e enxurradas. Além disso, outras ações positivas são adotadas no campo, como a rotação de culturas agrícolas, o plantio direto, que ajuda a enriquecer o solo a partir do aproveitamento da matéria orgânica dos restos culturais de outras lavouras, e o incentivo à adoção do Manejo Integrado de Pragas, com utilização crescente de controle biológico, em substituição ao uso de produtos químicos.

 

"Todo ano, colocamos mais desafios para o produtor melhorar sua forma de produzir o algodão. A cada safra, a fazenda tem que melhorar (o percentual de alcance de metas do programa ABR) e nós desafiamos (esse produtor) para o conceito de responsabilidade não ser estanque", diz Portocarrero.

 

O Movimento Sou de algodão

O diretor explicou que a iniciativa da Abrapa busca promover o algodão no mercado interno, principalmente, para recuperar o mercado que foi perdido para o sintético. Ele revelou que foi realizada uma pesquisa apontando que o consumidor estava perdendo a consciência do valor do algodão, como fibra natural para a moda e isso deveria ser resgatado. 

 

Dessa forma, foi criado um movimento único no Brasil, que une todos os agentes da cadeia produtiva do algodão, como produtores, associações estaduais, instituições ligadas ao agro, e da indústria têxtil e de moda, como estilistas, jornalistas, universidades, marcas e influenciadores, dialogando com cada público e stakeholder, promovendo a moda responsável e o consumo consciente.

 

Assim, em 2016, o movimento Sou de Algodão foi criado e, em 2017, passou a convidar marcas a se tornarem parceiras. "Ao longo dos últimos cinco anos, partimos de 10 marcas a mais de 950 empresas, envolvendo desde pequenos empreendedores até grandes varejistas e estilistas. Marcas como João Pimenta, Farm, Ginger, Malwee, Pernambucanas, Covolan e Dalila Têxtil fazem parte do movimento", reforça o Portocarrero.

 

Programa SouABR e QR Code

 

Recentemente, o Movimento Sou de Algodão aperfeiçoou o processo e trouxe o algodão certificado até a etiqueta da roupa por meio de um programa que permite rastrear a cadeia, da semente até o guarda-roupa. 

 

O programa de rastreabilidade nasceu sob as demandas crescentes do consumidor por mais transparência nos processos de compra, venda e consumo. A proposta é oferecer ao público uma espécie de "raio-x" da peça que ele está adquirindo, comunicando os passos que ela percorreu até chegar às suas mãos. Tudo isso, baseado na tecnologia Blockchain, que funciona como um banco seguro de informações organizadas em blocos e que impede alterações. O objetivo é estimular o consumidor a fazer escolhas mais conscientes, demonstrando que o algodão presente naquela peça de roupa tem certificação socioambiental pelo programa ABR.

 

"Começamos com a Reserva, que lançou camisetas masculinas, em outubro de 2021, e a Renner, que acaba de lançar uma coleção de calças jeans femininas. Em 2023, iremos abrir o programa para as marcas que estão na fila se habilitarem",  finaliza Marcio.